Dona Aparecida tem 58 anos, criou quatro filhos na roça e nunca teve conta em banco até 2022. Não porque não quisesse — a agência mais próxima ficava a 47 quilômetros, e o ônibus passava três vezes por semana. Quando a Cooperativa de Crédito Rural do Vale do Pajeú abriu um posto de atendimento no distrito onde ela mora, no interior de Pernambuco, ela foi uma das primeiras a se associar.

"Antes eu guardava o dinheiro em casa mesmo. Às vezes perdia, às vezes gastava antes da hora. Agora tenho conta, faço empréstimo com juro menor do que o banco e ainda recebo sobra no final do ano", conta ela, referindo-se ao mecanismo de distribuição de resultados que diferencia as cooperativas dos bancos comerciais.

O fenômeno das cooperativas no interior

O Brasil tem hoje mais de 1.100 cooperativas de crédito singulares, segundo dados do Banco Central. Nos últimos cinco anos, o número de cooperados cresceu 38%, chegando a 16,4 milhões de pessoas. Mas o dado que chama mais atenção é a expansão em municípios de pequeno porte: 62% das novas unidades abertas entre 2021 e 2025 estão em cidades com menos de 50 mil habitantes.

Esse movimento acontece, em parte, como resposta ao fechamento de agências bancárias. Entre 2017 e 2024, os cinco maiores bancos do país fecharam mais de 4.200 agências, concentrando o atendimento presencial nas cidades maiores. O vácuo deixado foi preenchido, de forma desigual, por correspondentes bancários, fintechs e, cada vez mais, pelas cooperativas.

Diferenças que importam

Para o agricultor familiar, a diferença entre uma cooperativa e um banco comercial não é apenas ideológica. As taxas de juros para crédito rural nas cooperativas são, em média, 2,3 pontos percentuais menores do que as praticadas pelos bancos privados, segundo levantamento da Organização das Cooperativas Brasileiras. O prazo de carência é mais flexível, e o relacionamento com o gerente — que muitas vezes mora na mesma cidade — facilita a negociação em anos de safra ruim.

Lúcia Vasconcelos percorreu seis municípios do sertão pernambucano para esta reportagem e ouviu 23 cooperados. A percepção unânime: a cooperativa é vista como "da comunidade", não como uma instituição externa.