A escola municipal Professora Maria das Dores, em um pequeno município do sertão baiano, tem 180 alunos e apenas quatro professores efetivos. As outras seis vagas estão preenchidas por contratos temporários que vencem em julho — e ninguém sabe se serão renovados. O telhado da sala de aula do quinto ano vaza quando chove. O bebedouro quebrou em março e ainda não foi consertado.

A situação não é exceção. Um levantamento realizado pelo Naravo Digital em parceria com o Observatório do Ensino Público visitou 40 municípios do semiárido nordestino e encontrou um padrão recorrente: escolas com estrutura física deteriorada, quadro docente incompleto e ausência de materiais pedagógicos básicos.

Os números por trás das histórias

Das 40 escolas visitadas, 31 apresentavam algum problema estrutural grave — telhados danificados, instalações elétricas precárias ou banheiros sem condições de uso. Em 22 delas, havia pelo menos uma sala de aula sendo utilizada com capacidade acima do recomendado. O índice de rotatividade docente — medido pela proporção de professores que não renovam contrato de um ano para outro — chegou a 67% em alguns municípios.

Os gestores municipais ouvidos pela reportagem apontam, quase unanimemente, a insuficiência do Fundeb como principal causa. "Recebemos menos por aluno do que o custo real de manter uma escola funcionando bem", disse o secretário de educação de um dos municípios visitados, que pediu para não ser identificado por temer represálias políticas.

O que dizem os professores

Gilberto Araújo ouviu 18 professores ao longo de duas semanas de reportagem. A palavra que apareceu com mais frequência nas conversas foi "cansaço" — não apenas físico, mas emocional. "A gente sabe que o aluno precisa, a gente quer dar o melhor, mas como? Sem material, sem apoio, sem salário digno?", disse uma professora de 34 anos que leciona há oito anos na mesma escola e nunca foi efetivada.