Joselma trabalha como agente comunitária de saúde há 11 anos em um município de 8 mil habitantes no interior do Piauí. Sua microárea tem 180 famílias — o dobro do recomendado pelo Ministério da Saúde. Ela faz as visitas a pé, porque a bicicleta que a prefeitura forneceu quebrou em 2024 e não foi substituída. O kit de insumos que deveria receber mensalmente chega com atraso e incompleto.
"A gente é o elo entre a comunidade e o sistema de saúde. Mas quando o sistema não funciona, quem fica na linha de frente somos nós. E a culpa também cai em cima da gente", diz ela.
O que a pesquisa revela
Uma pesquisa realizada pela Federação Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde (Fenacs) ouviu 800 profissionais em cinco estados — Piauí, Maranhão, Bahia, Pará e Minas Gerais — e pintou um quadro preocupante. Setenta e dois por cento relataram microáreas acima do limite recomendado. Sessenta e um por cento disseram não receber os insumos necessários com regularidade. Quarenta e oito por cento relataram episódios de assédio ou pressão política por parte de gestores municipais.
O salário médio dos agentes ouvidos era de R$ 2.824 — pouco acima do piso nacional, mas insuficiente para cobrir os custos de deslocamento em áreas rurais extensas, onde muitos precisam usar transporte próprio para cumprir as visitas.
O que dizem os gestores
O Ministério da Saúde, consultado pela reportagem, afirmou que o Programa de Agentes Comunitários de Saúde passou por reestruturação em 2025 e que os repasses federais foram ampliados. Mas reconheceu que a execução depende dos municípios, e que há "heterogeneidade significativa" na implementação.
Para Fernanda Mota, que cobre saúde pública há sete anos, o problema não é novo — mas a escala piorou. "Depois da pandemia, esperava-se que a atenção básica fosse prioridade. O que se vê, na prática, é o contrário."